Está um pouco insuportável ser eu agora,

9 ago

 mas suporto porque é assim que tem que ser. Queria estar em casa. Queria estar com as cachorrinhas. Queria estar em casa com as cachorrinhas, chorando. 

Em vez disso, sou uma pessoa sentada na entrada do prédio do trabalho, fazendo força pra não chorar de novo no escritório e digitando no telefone. 

Luto que a gente sente por quem está vivo parece pior que por quem não está. Nada que a gente faça, nada que o outro faça, nenhuma mudança nas circunstâncias ou nos sentimentos faz o outro voltar, e o que não tem remédio remediado está. A gente esquece o que não foi bom e guarda pra sempre o que foi muito. E encontra o conforto. 

Mas pensar que eu estou viva, o outro também e todas as alternativas e condicionais que poderiam ter acontecido mas que não – outro momento na vida, não ter havido um evento traumático pra desestabilizar o que parecia poder ser alguma coisa que poderia ter nos levado a sermos mais felizes, a estarmos juntos de verdade, ter tido mais ou menos paciência ou compreensão ou bloqueios – que nada realmente muda, nada realmente traz de volta o ser amado, gostado, ou pretendido, amarração garantida, virge mãe puríssima. 

Nunca tem isso, eu sei – estamos continuamente nos transformando e tentando evitar a decepção, o cansaço e a separação. Que às vezes se confunde com aproveitar enquanto isso ou até lá, esperando que o até lá não chegue, observando os momentos que são bons e valiosos e olhando pra eles como se fôssemos visitantes de uma exposição num museu. Você está lá e não está. Às vezes, tudo pode estar misturado, e há dúvidas mas também uma esperança que fica servindo de forro pra tudo. E a gente encara. 

Eu sou essa fonte inesgotável de otimismo e realismo.

É muito difícil abrir mão da esperança e de querer ouvir que talvez eu estivesse enganada ou que tivesse compreendido mal, ou o outro tivesse feito isso. É bem difícil esvaziar os espaços da vida em que o outro havia e colocar outra coisa pra preencher de novo, com outros sentimentos ou atividades ou GoT sem ninguém pra comentar. Ainda não cheguei nesse ponto. Está tudo bem novo. 

hash tégui num quero mais, valeu

9 ago

Acho que já deu pra mim essa história de viver luto. Fico muito esperneando pra ser positiva, eu me obrigo a ser otimista, e eu vou e tento, porque sem tentar também não dá, que eu não sou dessas. Aí parece que vai. Aí me dou conta de que não. Mas sei lá, parece que tem uma lição qualquer que o universo quer me ensinar sobre isso e fica insistindo e batendo na tecla da perda, mas pelamor, pra mim já deu. Moving on, universo. Vamos agora passar para a lição 2, em que eu ganho em vez de perder.

Só tenho certeza de uma coisa e essa coisa coisa não é

25 nov

Dando continuidade ao ciclo de perdas que já dura 2 anos, uma lista, em ordem cronológica (quase):

  • minha vida tal qual ela era na Filadélfia e todo aquele contexto prático e emocional;
  • a Cuca, a primogênita;
  • o Tim, gatinho da minha sobrinha;
  • minha mãe;
  • a Lilica, alfa da matilha do T-Bone;
  • o T-Bone, cachorrão da família do meu irmão;
  • a Lana, irmã do T-Bone;
  • a Paquita, cachorrinha da família do meu outro irmão;
  • o Chaz, o filhotinho perfeito;
  • a maior parte das minhas certezas.

Fiquei pensando aqui que nosso relacionamento com nossos bichos significa muito mais somente do que cabe nesse relacionamento – amoroso – que já começa fadado a ter final trágico.  Exceto por uma virada inesperada da ordem do que ocorre em nossas vidas, nosso bichinho vai morrer antes da gente.

Pensei nos meus cachorrinhos.

Começar a amar um cachorrinho significa aceitar  a perda e o sofrimento. Mas saber que o cachorrinho vai morrer e que a gente vai ficar um pouco mais, sem eles, com o coração partido, não nos impede de investir dedicação, não nos faz avessos aos afagos cotidianos, às lambidinhas na cara, ao aconchego na hora de dormir. Não tira nem um pouco do prazer de ver um rabinho abanando, de assistir a uma dança de alegria porque está na hora da comida, de dividir uma laranja de sobremesa. Não é obstáculo à acolhida na nossa vida, à ocitocina, às massagens noturnas, aos espirros na cara quando ele acorda e vem dizer que está na hora do café, a coçadinhas na barriga, a carinhos nas orelhas mais macias e sedosas, a olhar bem dentro dos olhos dele – que me olhavam de volta – e, perdoe o clichê, sentir uma coisa explodir dentro do coração.

Vai acabar – isso é certo – mas a gente se dá inteiro.  Eu me dou.

Fico achando que tudo isso é demonstração da nossa capacidade e da nossa vontade de amar – que se multiplica. Dessa dica que a vida nos dá: oi, tem jeito, tem reciprocidade, não pode ter medo de usar ou de gastar. De onde vem isso tem sempre muito mais. Serve pra bicho. E pra gente também.

Fiquei pensando em como a gente tenta se proteger de um fim triste, de como a seleção fica mais e mais criteriosa, ou mais crica, de como a gente ouve mais o conselho do medo e da frustração, do que o do que realmente importa. De como a gente evita expor nossas fragilidades e de como a gente se protege sem se dar conta.

De uma história que ouvi  (“The Brief and Real Existence of Unicorns”):

My two favorite emotions are the hope that comes with the beginning and the certainty that comes with the end.

Chaz: comecei esperando que você perdesse seu medo de gente, comecei esperando que um dia você não me mordesse mais e gostasse de mim e, no fim, só tenho uma certeza: foi amor.

É amor.

Que sorte.

cha

Filhotinho mimindo, todo lindo – só de olhar pra ele meu coração explodia

Nem tem o que dizer se não for amor

7 out

Hoje faz um ano que me despedi, pela última vez, da minha mãe.  Ela não ouviu a despedida, mas quando o coração parou de bater, eu estava segurando a mão dela.

Eu costumava me despedir da minha mãe dando uma cafungadinha. Ela dizia “credo”e perguntava o que eu estava fazendo e eu dizia que estava sentindo cheirinho de mãe. Já no hospital, nos últimos dias, depois da cafungadinha, eu dizia “melhor mãe do mundo, né, mãe?” e ela respondia que sim com a cabeça.  No funeral, meu último agradecimento, que ela também não ouviu, foi por ter ensinado a gente a ser gente boa e sido a mãe, companheira e irmã que ela foi. Uma mulher do século XXI, que era como ela pensava sobre si.

Minha mãe cantava enquanto cozinhava e a comida dela era a maior demonstração de amor. Tanto era assim, que ela nunca achava que a comida tinha saído do jeito que ela queria – poderia ser sempre mais gostosa. Ela tinha panelas grandes, enormes, porque ela sempre cozinhou para todos nós – e para quem chegasse com a gente. “Tem que ter panela grande pra quando os meninos vierem, pra quando seus amigos vierem”. Meu irmão Binho herdou o dom da bacalhoada.  O Gunga faz um cozido japonês. Eu faço soba. Eu cozinho sempre em grandes quantidades.  Canto músicas da Dolores Duran no chuveiro.

Ouvi ontem um podcast, porque eu sou a rainha dos podcasts, sobre o 11 de setembro. Sobre morrer, viver e sobreviver. Uma das histórias era sobre o capelão cujo corpo foi o primeiro a ser retirado dos escombros.  No sermão, em seu funeral, o padre, que era amigo dele, termina dizendo:

And so, this morning we come to bury Mike Judge’s body, but not his spirit.

We come to bury his voice, but not his message.

We come to bury his hands, but not his good works.

We come to bury his heart, but not his love. Never his love.

Minha mãe já não está, mas permanece dentro da gente. Nas coisas que a gente faz. No que a gente cantarola.  No que a gente diz.  No jeito de tratar as pessoas. Minha mãe já não está, nem o corpo, nem a voz, nem as mãos ou o coração. Mas o amor fica.

O amor fica

O amor fica

Os abraços e as músicas das caixinhas, wormholes e umas tristezinhas desconexas˜

4 maio

Às vezes, fico pensando nos comentários que não vou ouvir. Minha mãe não vai mais exigir que eu deixe o cabelo crescer. Nem vai me dizer que minha blusa azul tem um tom lindo, mas essa faixa do lado fica feia e caída. Daqui a alguns meses ou anos, ela não terá conhecido tudo o que está no meu guarda-roupa.  Não terá sabido qual meu perfume novo. Machuquei o dedo esses dias, ficou bem feio, roxo, notadamente inchado. Mostrei pro meu pai, meu pai não soube ver a diferença.  Fiquei imaginando que minha mãe teria. Que mãe tem esse conhecimento das partes do corpo, do bem-estar e das coisas todas que vão por dentro da gente que é exercido de um jeito inigualável.

Eu vou no armário dela e pego um casaco e visto um abraço que não tem mais.

Meu pai passa cata-bolinha no casaco pra me entregar de noite.

Fiquei pensando no que minha irmã não viu ou ouviu ou sentiu – como nós. Ela não nos viu envelhecer, nem envelheceu ela mesma. Não conheceu todas as sobrinhas.  Não ouviu nossas vozes mudarem, não me viu de cabelo curto. Perdeu conversas ouvindo música. Não experimentou minhas comidas, faltou a formaturas, casamentos, festas de aniversário e pity parties.

Mas tem essa caixinha de joias – abri e tocou uma música que ela ouviu. Em algum momento, há bem mais de vinte anos. Caixinha de viagem no tempo, um buraco de minhoca.

Achei de uma delicadeza.

* * *

Quando eu fui à xamã, a primeira imagem de que ela falou foi a de um cavalo.  Que anda pra trás e vem galopando pra frente, mas sem nunca passar do ponto inicial.

Eu não sei querer. Não sei fazer pedidos. Planos.  Recebo só o que me é dado e oferecido.  Do mesmo jeito que eu nunca aprendi a sentir sentimentos sem fazê-los virar objetos analisáveis somente pela mente racional empírica, não sei formar desejos específicos.  Sei dizer do que eu penso ser capaz de oferecer.  Sei dizer o que falta, em termos vagos. Sei dizer muito mais não do que sim. Ou, talvez, eu saiba querer, mas prefira não ou prefira fingir que não porque eis aqui o ser mais medroso que você já conheceu.

* * *

Tem uns gestos de que eu me lembro, uns olhares, coisas que me foram ditas – eu realmente preciso fazer um esforço bem grande pra perdoar.  Não quero mais lembrar disso, não quero mais essas pontad(inh)as, acho que preciso aprender a dizer não a algumas relembranças.

* * *

Rallentando pianissimo = eu.

Vídeo

Uma noite de segunda-feira com meu pai

23 mar

Eu vi um documentário sobre a Ana Cristina Cesar com o meu pai, que só gosta de ler poemas românticos (da era, não do tema).  Era uma vez, quando eu era pequena,

– eu ia dizer que era um tempo em que eu ainda achava que eu tinha inclinação (para significar talento) literária, como depois fiquei achando que ainda houvesse esperança (vã), quando entrei na São Francisco e fui me formar e entrar na forma e virar burocrata, dados os tantos exemplos de gente que fez (D)direito e que –

mas eu nem achava nada sobre eu ter talento pra escrever, eu simplesmente escrevia coisas tão naturalmente como crianças desenham; eu escrevia em cadernos de espiral e fazia as ilustrações e índice (que meus irmãos consideram ser indícios de minha personalidade metódica).  Eu escrevia peças de teatro que meu irmão batia à máquina pra eu levar para os atores e ele, por sua vez, batia à máquina poemas do Drummond que ele me fazia decorar, mas que eu não declamava com a propriedade de:

Meu outro irmão recebe um poema que eu copiei e sobre o qual eu fiquei desenhando círculos e diz que não tem capacidade pra entender poesia, mas quem, de nós, é que sabe que a gente tem que colocar o alho no azeite e o azeite no bacalhau, mas nunca o alho no bacalhau?

Aí eu li pro meu meu pai:

Tecendo a Manhã

e ele quase chora contando do barulho das asas do galo batendo antes de cantar, e do amiudar do canto do galo na madrugada.

E li:

“é sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço.”
Ana Cristina Cesar; ‘Recuperação da Adolescência’

E deixei com ele lá “A Teus Pés” pra fazer uma educação poética dele. Mas aí nós já estávamos falando de espaço mesmo (outro espaço) e ele me contou de uma vez que ele foi de ônibus, com meu irmão, pra São José, e que ele olhou da janela e falou que, gente, era bem grande o céu e que a gente estava olhando aqui de baixo pra cima e que, será?, será que não haveria um outro Olavo, um outro Gunguinha, olhando de lá pra cá também e pensando as mesmas coisas. Que um dia, em São José também, a gente estava no pasto olhando pra estrelas que estavam lá em cima e disse pra ele que, se a gente está aqui olhando pra cima pro espaço e lá de cima estão olhando pra nós, então que certamente nós estamos no céu também.

O dia em que eu (não) terminei tudo

3 mar

Semana passada, esperei por Dr. Orkut por longos 20 minutos, aos fins dos quais mandei uma mensagem a ele perguntando se não havia sido engano meu – confundi data, hora (mas não, eu já sabia), ou se, sei lá – acidente de carro ou coisa assim? Não quis assumir o pior nem parecer insensível.  Recebi respostas de uma tal de Morna (só que começa com a letra anterior) pedindo perdão de joelhos que ela é que tinha feito um baita snafu, blablabla.  Psi me liga, me manda mensagem, alou, Dr. Orkut, pensei, estou no teste do coral, ou estou fora da cidade, de FÉRIAS, me deixa em paz, depois a gente se fala.

Voltei lá muito determinada a terminar tudo, que eu achei péssimo, péssimo nível criança deixada na porta da escola pelos pais (menos o drama e o abandono, restando somente a seriedade da coisa toda, da bagaceira profissional de maneira geral), somando que quero – quero talvez seja e/ou é uma palavra muito forte – começar a fazer Pilates e eu não tenho dinheiros para manter todos os meus hábitos/desejos de classe média – meu sakê, meus queijinhos, vez ou outra uma fruta exótica.  Manter o cão vivo e saudável, alimentado e vacinado. E minhas coisas culturais – livros, festas, cines.

Dr. Orkut diz que imaginava mesmo.  Ele sabe que eu sou muito séria com essas coisas. Mas Dr. Orkut diz que, veja, nós nos damos tão bem, há tanto para falarmos, tó esse livro emprestado, que você tem cara de quem devolve livros (um sobre imperialismo cultural norte-americano), pensaí, veja se vale a pena, a gente troca o dia, já que o coral está começando.

Sou boba, né? Peguei o livro emprestado, tenho até dó de não ler. Apesar de já saber o que vai dizer porque – história da minha infância – combater o imperialismo cultural norte-americano foi tema tratado em reuniões familiares que tínhamos, em forma de ouvir disco da Maysa e do Chico todos juntos e não receber mesada pra gastar com qualquer enlatado americano.

Calma que deu tudo certo no final.  Ninguém ficou com cicatrizes profundas POR SOMENTE TER GANHADO A BARBIE DEPOIS QUE BRINCAR DE BONECA JÁ NÃO RESOLVERIA O DRAMA QUE TODAVIDA FOI TER SUSI E SÓ FAZER PAPÉIS COADJUVANTES NO FAZ-DE-CONTA.

Devolvo semana que vem – falávamos do livro – porque tenho que pagar essa última sessão e pegar recibo para o reembolso do plano de saúde.

E Dr. Orkut: veja, quem sabe você não começa com caminhadas? Psi, dear, eu subo escadas no metrô, eu ando a pé pra quase tudo que é lugar. Serião? Que você quer me demover da ideia de fazer ginástica (falo assim porque eu tenho idade para tal, não tenho idade pra “treinar”) para que então se promova uma velhice menos caquética, menos caída e flácida, embora solitária?

Tomei unmatch no Tinder. De novo.

Não que eu ligue, mas é que Tinder é bom demais pra ter assunto pras minhas sessões de stand-up para as quais convido somente minha família e amigos. Material, gente. Abundante.

Que mais?

Passei no teste do coral.

Dessa vez não é feminista LGBT e fica, inclusive, dentro da Igreja Messiânica, e eu quis fugir porque tudo de que não preciso é louvar a Gzuis por meio de notas musicais e melodia e ritmo produzidos pelo meu próprio corpo.  Mas parece que não rola Gzuis no repertório. Passei e fiquei.

Linha winnicottiana, aos que se perguntavam o mesmo que eu me perguntava.

Donald, quack.

Donald, quack.

Pelo lado bom, vou me manter um pouco mais longe da Livraria Cultura e do frozen yogurt com calda de goiaba.

Praticando a psicologia da felicidade.

Eu tento consolar meu pai falando de multiversos

11 fev

Ficava todo mundo rindo rarrarrá da cara do cientista que chegou à fórmula que, em teoria, diz ser possível a existência de outros universos, mas já até ouvi o Michio Kaku falando a respeito.  Num outro universo, talvez meus pais tenham morrido no acidente de fusquinha na década de 60.  Não haveria eu. Nem o Chaz nem a Cuca. Nem o Gunga.  Mas, principalmente, eu disse pra ele que, num outro universo, ainda tem a minha mãe. E ela nem ficou doente. E não passou tanto tempo no hospital.  Ele dá uma voltinha na quadra com o cachorro, e quando olha para a janela do apartamento na única brechinha em que consegue vê-la, durante o percurso, e não pensa: “ela deveria estar lá me esperando”, porque ela está, de fato, lá esperando.

Eu ouvi num podcast, hoje, que as memórias, quanto mais são lembradas, mais se afastam da realidade.  Que a realidade existiu – do jeito que você a experimentou – e, em seguida, vira memória. E que, quando você puxa aquela lembrança, já é a lembrança da memória – e que, assim, ela vira história da história da história. Cada vez mais longe do que foi.

Eu perguntei pro Dr. Orkut sobre essa teoria de eu pensar sentimentos – em vez de sentir.  De eu não querer bater em almofadas quando estava com raiva (interna) do outrora menino mais lindo do mundo.  De eu chorar meus lutos por, sei lá, 3 dias, intensamente, tipo louca de filme, e depois estalar os dedos e pensar: chega de mimimi. Porque eu não vejo muito qual o ponto. Se nada vai mudar. Ele disse que acha que talvez as memórias fiquem guardadas, num lugar de fragilidade.

Todos os dias, a caminho do trabalho, eu lembro de como foi estar no hospital quando a minha mãe morreu. De ligar pro meu irmão no interior, num canto de escada, e dizer: “vem, que acho que não vai dar”. De ir pra casa buscar roupas bonitinhas para levar de volta pro hospital para o corpo ser vestido.  De carregar a certidão de óbito pesando 1000 kg na minha mochila.  Do meu pai e do outro irmão chegando, logo depois de eu receber a notícia.

São uns pensamentos fugazes porque eu já tinha decidido estalar os dedos.  São umas memórias minhas que eu não quero lembrar muito, talvez para elas ficarem mais próximas, cruas e doídas, de quando elas foram sentidas com toda a intensidade. Pra não virarem farrapo de sentimento.

Memórias

Memórias

Fim da Copa, gritos de Galvão.

27 jan

O vídeo é pra ver se eu me acalmo porque.

Cheguei no trabalho tocando o terror a respeito da crise hídrica:

Bom dia! Tenho más notícias.

ACABÔÔÔ!!!11 ACABÔÔÔ o segundo volume morto e a água toda acaba em juuuuunho!!!!11

— Para! Você está me deixando em pânico!

— Mas é pra ficar!

— Mas como assim guardar água da máquina??!!!!11 Que ideia boua!!! Oi? Banho de 5 minutos? O meu dura 15!! Como é que eu não estou sabendo sobre o terceiro volume morto??!!!11 Não passa na televisão!!!111

Mando por email o boletim da falta d’água.

Pessoa chora por dentro.

Corta pro fim do dia. Outra pessoa me diz:

Eu vou falar pra você qual é o problema. O problema é que a população de SP triplicou nos últimos dez anos. E a água que era pra gente usar… Não tenho nada contra o pessoal que vem lá de cima, mas.

Quando eu falo que eu não tenho estrutura emocional, ninguém me entende?

Por falar em estrutura emocional, pedi pro Dr. Orkut pra não dar mais beijo de oi e tchau. Achei muito maduro. Achei que minha xamã ia se orgulhar: porque eu tenho que pedir aos outros o que eu quero deles.

Rá.

O próximo passo será pedir que ele evite expressões como: “é muito top.” Não tenho condições de focar no processo terapêutico desse jeito.

Coisas boas do psi – Top 5 razões pra eu voltar àquele consultório

23 jan

Leitores com cara de quê e por quê quando eu falo do Dr. Orkut.  Indignação, revolta, confusão.

Mas nem tudo no Dr. Orkut é ruim. Vejamos:

  1. Eu chego lá e sinto que sou, sei lá, normal.  Tem cartazinhos em todos lugares, dando ordens repetidas: ˜Mantenha a porta fechada”, “Feche a porta sem fazer barulho”, “Abaixe a tampa” (do vaso sanitário), “Ao terminar de beber água, jogue o copo no lixo”.  Tem instruções detalhadas sobre como funciona o aparelho de som na sala (mais pra closet) de espera. Tem instruções dizendo: a cadeira do psi é mais alta somente por questões anatômicas.
  2. Eu me sinto muito compreendida. Eu conto que mandei pessoa quase tomar no coo, que perdi a cabeça, que cheguei no meu limite e ele diz: acho que você agiu bem.
  3. Ele não alimenta em mim esperanças vãs: não, vida real não é filme. Pronto, acabou, vire-se na internete.
  4. Ele é de esquerda.
  5. E simpatiza com o(s) meu(s) peguete(s).  Eu também simpatizo, mas acho que simpatizo demais.
  6. (Vai de lambuja) Ele incentiva que eu invista em novos nichos: de homens barbados (rá!), no sentido de: talvez uma faixa etária mais adequada? Umas pessoas de 40 e poucos? (ele ainda não sabe que 33 é o novo 23, e assim por diante – eu acho bonito esse otimismo).
  7. (Extra grátis) Ele se recusa a acreditar que minha vida é cagada e que eu sou engraçada e quer provas: por isso ele pediu pra ler o blogue. Mas recusei, porque pauta de blogue, aprendi, não pode jamais saber de blogue. Motivo pelo qual não falo do(s) peguete(s) dos quais não escondi bem minhas origens internéticas e nem do trabalho (tenho amigues lá).

Achei que devia essa explicação a você que me lê e preocupa-se comigo e minha sanidade psíquica e emocional.  Pronto. Taí.